quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Vida de Artista

Vida de artista é uma ótima metáfora para refletirmos sobre quem somos nós, entre tantos eus que vamos criando ao longo da nossa história. O ator é escalado para representar um papel e mergulha nesse universo novo e desconhecido que é um ser humano virtual e ao mesmo tempo tão real, para que o público possa se identificar.

Na nossa vidinha diária, cotidiana, sem o glamour da mídia e sem os calorosos fãs, também vamos construindo nossos papeis, nossos eus: eu sou filha de... eu sou mãe de...eu sou esposa de...eu sou irmã de...eu sou amiga de...eu sou cuidadosa com meu corpo...eu sou voluntária em...eu sou profissional da área de...eu sou...eu sou... Nossa mente parece um terreno loteado de seres de vida própria, de hábitos diversos, de formas diferentes de ver o mundo. Cada um em seu espaço, com experiências e sentimentos singulares.

A grande arte da vida é colocar em sintonia e sinergia todos esses papeis, nossas subpersonalidades tão importantes e ricas para a construção e manutenção da nossa identidade. Aliás, para a qualidade da nossa saúde física, mental, emocional e espiritual.

E como podemos fazer isto? Como exercitar, assim como o ator, entrar e sair e voltar e aprender com tudo que vamos experimentando?

Para mim a criatividade é uma prática bastante prazerosa e divertida de fazer essa integração. Segundo Jairo Siqueira, que cunhou o termo criatividade aplicada, nossa mente utiliza estratégias para criar e solucionar, de forma inconsciente, os desafios que surgem na nossa vida.

Gosto muito de um deles que considero bastante rico. Chama-se “Outros pontos de vista”. Esta estratégia nos leva a “sair do quadrado”, da nossa forma habitual e muitas vezes linear de percebermos o mundo.

Vamos ver como funciona?

Imagine que eu sou uma profissional que está desempregada. Com tempo livre, passo a exercer o papel de dona-de-casa com mais disponibilidade.

Como posso ser uma dona-de-casa eficiente, para usufruir melhor o tempo com outras atividades?

Nesse momento, eu posso trazer a experiência de outro papel – de administradora – que ao chegar à empresa analisa as prioridades do dia, organiza as tarefas dos colaboradores e delega responsabilidade.

Como eu, no papel de gerente, faço para atingir os resultados e cumprir a agenda da equipe? Quais as qualidades e recursos que utilizo?

Para isso, transporto-me momentaneamente para o ambiente empresarial e volto trazendo, para meu papel dona-de-casa, as estratégias que funcionam na empresa – organizar as tarefas diárias da empregada doméstica, listar semanalmente os produtos para comprar no mercado, delegar para marido e filhos algumas atividades.

Deu para perceber como papeis considerados tão distintos, em ambientes tão diversos, podem entrar em sinergia e colaborarem uns com os outros? A idéia da estratégia “Outros pontos de vista” é exatamente fazer um intercâmbio entre eles, onde a excelência de um pode ser aplicada em outros.

Ao deixar meu papel de dona-de-casa mais estruturado, eu fico mais livre e menos cansada. Posso então deixar emergir os recursos de outro papel – de bailarina de jazz – a concentração, a disciplina, o prazer de trabalhar em grupo, a alegria e emprestá-los para um novo papel que posso desempenhar num momento que tenho tempo ocioso – ser voluntária de alguma ONG.

A dinâmica empresarial inspirando o ambiente familiar a funcionar da melhor forma. Qualidades e recursos de um papel inspirando outros a atingirem seu objetivo e permitindo o surgimento de novos papeis. Mesmo em situações adversas como o desemprego. É a máxima de transformar um limão em limonada.

À medida que nos permitimos visitar outros papéis para pedir emprestado um pouco do seu olhar, do seu movimento peculiar, acabamos por transformar o papel que recebe, que absorve do outro. Vamos mudando naturalmente o figurino dos nossos personagens, às vezes um pouco fora de moda, ampliando suas possibilidades, ressignificando suas crenças, atualizando o roteiro para o que somos hoje.

Assim como acontece na vida do artista, que mesmo interpretando pais, filhos, maridos, profissionais tantas vezes ao longo da sua carreira, nunca um papel é igual ao outro, assim somos nós, que vamos vivenciando com a maturidade, com as experiências diárias, novas facetas de papéis tão conhecidos, tão singulares, que nos presenteiam com surpresas inusitadas.

Que tal acabarmos com a imagem de nossa mente como um terreno loteado, retirando as cercas que bloqueiam nossa criatividade, permitindo que ela possa passear livre entre os campos, colhendo nossas melhores flores entre tantos eus?

Aposto que assim subiremos ao palco da vida muito mais leves, flexíveis e preparados para vivê-la plenamente. Lembrando sempre que somos um único ser humano de vários papéis que comungam de preciosas qualidades.

Que se abram as cortinas! Que comece o espetáculo!