sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Tempo...Tempo...Tempo

Quando adolescente, costumava dizer que seria o máximo ter dezoito anos com a maturidade dos 40. Como eu poderia saber o que era maturidade e ainda por cima o que era ter 40 anos?

Temos a ilusão que controlamos o tempo, essa medida criada pelo homem para organizar a vida e medir sua própria existência. Será que foi criando o tempo que começamos a questionar a vida? Será que quando os homens da caverna contavam as luas, eles já tinham crises existenciais, dúvidas do “ser ou não ser”, julgamentos rígidos sobre seus atos, erros e acertos? Será que foi a modernidade dos relógios de pulso, de cabeceira, de computador, de despertador que nos tornaram escravos do “mais um dia na minha vida” - o que fiz ou o que não fiz?

Quando eu era garota, era libertador pensar que tudo podia. Não pensava sobre o tempo – apenas vivia minhas aventuras, as fantasias de ser “Jeannie” do seriado “Jeannie era um gênio” ou Samantha do seriado “A Feiticeira”. Poder mexer o nariz ou cruzar os braços e ver os meus desejos realizados: ser mais bonita, ter roupas descoladas, ver o príncipe encantado chegar fazendo uma declaração de amor, enfim, coisas de menina.

O tempo foi passando, ops, olha eu falando dele e os seriados ainda eram os mesmos; a programação não era tão diversificada e renovada como nos dias de hoje. Eram duas emissoras – Aratu e Tupi. Eu até sabia, aliás, ainda sei, a música que tocava quando começava a programação: “Bom dia, bom dia, Bahia do meu coração, Canal 4 está chegando em seu lar, TV Aratu está no ar”. É verdade, a televisão saia do ar e retornava no dia seguinte, nada parecido com a programação atual de 24 horas ininterruptas.

Bem, deixando os devaneios, o tempo foi passando e a imagem que eu fazia de mim como uma gênia ou uma feiticeira era uma doce fantasia, que passou a alimentar outros desejos – como adolescente e para não fugir da regra, queria estar formada, morando sozinha, nada de casamento nem filhos, com uma profissão de sucesso, viajando, enfim, livre, fora das asas dos pais. Minha geração foi adolescente nos anos 80 e nada era mais normal do que querer a liberdade total; eram as discotecas, as danças coreografadas, a sensualidade permitida nas novelas, filmes americanos, músicas de crítica social e política. Questionávamos tudo, fazíamos grandes debates, líamos livros de escritores que nos faziam refletir sobre o status quo, as desigualdades. Nada parecido com a geração 2000 que continua na casa dos pais como se fosse hotel, usufruindo do bom e do melhor, pensando em mba’s, cursos de pós, cursos para concursos, namorados dormindo nos quartos com direito a café da manhã.

É incrível como personagens da infância transformam-se em âncoras. A ancoragem é um processo de associar algo a uma sensação interna particular que nos fortalece, nos estimula, nos impulsiona ao movimento. Hoje quando fico indignada com a pobreza da maioria da população que me cerca; quando fico triste e comovida com a infância interrompida de tantas garotas mães aos 13 anos; quando comparo a estética dos grandes empreendimentos com as paredes de tijolos dos casebres dos bairros periféricos e de baixa renda; quando vejo tantos pais sem instrução suficiente para conquistar um emprego digno para manter sua família; quando assisto às guerras civis na África, com a epidemia de AIDS deixando tantos africanos órfãos; quando me irrito profundamente com a corrupção nas esferas políticas do nosso país, fecho os olhos e penso como seria bom ser a feiticeira dos seriados. Bastaria torcer o nariz, ou apontar o dedo, e a periferia pobre do meu país se tornaria uma periferia digna de cidadãos honestos e trabalhadores; as crianças e pré-adolescentes estariam em escolas públicas de qualidade, turno integral, aprendendo artes, música, dança, cidadania; as casas teriam espaço suficiente para os pais criarem seus filhos, com parques e área verde no bairro; homens com instrução e empregos dignos para proporcionar à sua família o bem estar que alimenta os sonhos; com uma varinha mágica acabariam as guerras e o desrespeito ao próximo na África, na América Central e no Oriente Médio; os políticos corruptos estariam presos como exemplo para as nossas crianças e novos governantes honestos e entusiasmados em servir aos cidadãos seriam escolhidos como modelo para os nossos jovens. Claro que não precisamos esperar pela magia para tomarmos uma atitude, nos movermos, fazermos a nossa parte. Cada um de nós tem todas as qualidades necessárias para sermos agentes de mudança.

Hoje com mais de 40, casada, mãe de dois filhos, profissional realizada, cidadã consciente e atuante, o que me faz rir quando penso na minha frase de adolescente, é que o legal, a grande magia, é exatamente o oposto - ter 40 anos com o entusiasmo dos 18 - para que o lema da “liberdade, igualdade e fraternidade” nos impulsione a agir em prol de um mundo melhor. E para isso, meus caros amigos, não é preciso ser feiticeira nem gênia de nenhum seriado de tv.