“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.” São com estas palavras de Paulo Freire que eu faço minhas reflexões sobre o abismo existente entre a fala e as ações dos nossos governantes.
Ou será dos cidadãos do nosso país também?
Todos os dias de chuva nas cidades brasileiras trazem a costumeira conversa matinal sobre os engarrafamentos, as bocas-de-lobo entupidas, as ondas de água suja e barrenta que não perdoam os pedestres a caminho do trabalho ou dos seus afazeres, as encostas apinhadas de construções irregulares, despejando aqueles que não deveriam estar ali. A mídia, se não fossem os lugares diferentes, poderia até reprisar a mesma reportagem do ano anterior, onde tristeza, sofrimento, desespero se fundem ao descaso dos governantes. Os cidadãos, por sua vez, colocam as mãos na cintura e com o olhar perdido, como num transe, buscam forças para retomar suas vidas, muitas vezes mutiladas pela perda de familiares e amigos. No Rio de Janeiro, a cena de espanto do Governador Sérgio Cabral com a mão encobrindo a boca quando chegou à Angra dos Reis, é a síntese silenciosa da imensa distância entre o cargo e a eficácia da gestão.
Os depoimentos de técnicos e expertises nos meios de comunicação têm abordado a falta de projetos e planejamento a longo prazo para moradia popular, infra-estrutura básica – saneamento e esgoto e prevenção de catástrofes. Mais uma vez, a questão primordial do nosso país, o pilar de toda qualidade de vida que os cidadãos de países desenvolvidos usufruem, é deixada para trás, nem é mencionada como a raiz profunda de tantos e recorrentes problemas – EDUCAÇÃO.
Só preservamos o que conhecemos. Pois é o conhecimento que cria um vínculo com o objeto observado. Só podemos preservar a integridade da vida dos nossos familiares e os demais da comunidade a qual pertencemos, se temos conhecimento dos nossos direitos e deveres como cidadão. Somente a educação amplia esta percepção, por meio da formação escolar e acadêmica, que traz o mundo da leitura e das múltiplas interpretações dos fatos que nos cercam. Somente a educação fortalece nossa identidade como agente transformador que também se transforma num movimento sinergético, criando um círculo virtuoso de responsabilidade, respeito, unidade. Somente a educação permite a organização de sociedades civis sérias e pró-ativas que exigem, fiscalizam, mudam as regras e as leis.
Sem a educação ficamos não num círculo virtuoso e sim num círculo vicioso. Continuamos no vicioso hábito de jogar lixo pelas janelas dos carros e transportes urbanos; lançar entulhos em áreas proibidas, muitas vezes de preservação; sem reciclar TODO o resíduo que produzimos; sem manter as praias limpas após um lindo dia de verão ou uma ótima noite de reveillon; sem o conhecimento necessário para construir e habitar locais permitidos; jogando pneus em rios que deveriam abastecer nossas torneiras sem tantos processos químicos de limpeza, num interminável desperdício de água e energia; levando meia hora para tomar banho; descartando indiscriminadamente eletrodomésticos e outros equipamentos sem a percepção do prejuízo que causamos a natureza. Enfim, vivemos robotizados, inanimados, seres sem consciência.
Lembra a conversa matinal? Ninguém se dá conta que o engarrafamento, o entupimento das bocas-de-lobo e as ondas barrentas e sujas acontecem exatamente por causa da nossa falta de educação, aliada à ineficiência dos governantes. A fala e as ações estão em freqüências diferentes, não combinam.
Se nossa fala e nossas ações fossem sincronizadas, uma ecoando a outra, nossas manhãs de chuva seriam motivo de alegria para encher as cabeceiras dos rios; molhar a grama dos jardins públicos e privados; tornar um domingo excelente para dormir até mais tarde; ver um filme comendo pipoca; ler um ótimo livro com o arranjo musical dos pingos que batem nas janelas e soleiras. E mesmo assim, se houvesse engarrafamento, ouviríamos as notícias da manhã não mais pelos problemas “de sempre”, mas talvez por causa dos motoristas não tão acostumados a dirigir em dias chuvosos. Mas aí é outra conversa....
