Marina Colasanti em “Eu sei, mas não devia”, fala sobre nos acostumarmos tanto com as coisas que acabamos por esquecer a essência da experiência. Diz ela: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. ...”
Foi exatamente nela que pensei quando brinquei o Carnaval de Salvador este ano.
Sou soteropolitana e desde minha infância participo do Carnaval da minha terrinha. Meus pais e tios foram foliões animados, daqueles que faziam fantasias iguais. Meus avós maternos moravam na Barroquinha, centro histórico da cidade, e desde quinta-feira, na abertura do Carnaval pelo Rei Momo, já entrávamos no clima da alegria momesca. Fiquei em bancos ao longo da Avenida Sete de Setembro, colecionei fitas do bloco “Os Internacionais”, circulava no calendário os dias que faltavam para a grande festa. Quando adolescente saí em blocos com trio - Papaléguas e Pinel. Deixava o bloco para comprar água ou cerveja, proporcionando uma renda extra para os ambulantes que, ao contrário de mim, estavam trabalhando. Vi nascer o Chiclete com Banana a partir da banda Escorpius do bloco Traz os Montes; vi Luiz Caldas com seus Acordes Verdes marcar a era do Carnaval contemporâneo, com o fricote; ouvi Ademar tocar Ave Maria na avenida; cantei várias e várias vezes, e canto até hoje, “minha menina Eva”. Adoro o Carnaval - sua alegria, sua espontaneidade, os homens vestidos de mulheres, mal ajambrados em saltos altos e batons carmim, o som eletrizante dos trios que invadem nossa audição e nossa alma com a genialidade de Armandinho Macedo, a beleza cênica de Daniela, a percussão de Brown, sem contar com a emoção de ver o Ilê passar, trazendo a beleza negra em seu esplendor, a história cantada em músicas poéticas ou poesias musicadas. Será que dá para entender tanto amor a uma festa onde não podemos contar com o luxo de banheiros e comida de excelente qualidade; onde o calor é grande, além de ficar pé em torno de 10 horas seguidas?
Estou com 45 anos e tanto a euforia quanto o pique não diminuíram ao longo do tempo. Hoje a segunda geração – minha filha adolescente - já brinca e gosta da folia tanto quanto eu e meu marido. No entanto, o meu olhar teima em trazer algumas reflexões importantes. Claro que o nosso Carnaval, que era mais nosso do que hoje, acompanhou as mudanças tanto do perfil do folião, hoje mais brasileiro do que apenas baiano, como a gestão da festa, antes blocos de amigos e vizinhos, hoje empresas altamente rentáveis, principalmente com a profissionalização das bandas, artistas internacionalmente consagrados. Como imperativo para gerir tantas demandas como segurança, logística, saúde, transporte e outros, que urgem num evento tão gigantesco como a maior festa de rua do mundo, os patrocínios deixaram de ser apoiadores discretos e passaram a ser co-gestores. Assim como camisas de jogadores de futebol estampam as empresas ao lado do escudo dos times, estamos nós a dividir o espaço da rua, da decoração dos trios, dos abadás, dos acessórios de mão e cabeça, com empresas patrocinadoras da grande folia.
Vocês então hão de perguntar: Qual o problema de tanta inquietação afinal?
Pois bem, o Carnaval de rua como o nosso é uma manifestação multicultural, multiracial, multisocial e todos os multi que se fizerem apropriados. Essa mistura tão diversificada sempre foi o grande charme, o ápice da liberdade de expressão de todas as “cores e bolsos” da nossa população. No entanto, para atender aos outros brasileiros que prestigiam nossa festa, estamos importando camarotes luxuosos e completamente desconectados com a essência do nosso carnaval. Eles são ótimas acomodações para o desfile das escolas de samba do Rio e de São Paulo, onde, como a própria palavra diz, é um desfile para o expectador apreciar a evolução da escola, seus figurinos, a música tema do ano. Nós somos participação, pé no chão, seja no bloco ou como “pipoca”, apelido carinhoso daqueles que não saem em blocos, que sentem no corpo a vibração dos trios e a alegria contagiante dos foliões.
Além disso, que saudade do colorido dos acessórios chamados “mamãe-sacode”, hoje substituídos por kits de promoção de produtos das empresas patrocinadoras, gerando uma grande poluição visual nas nossas avenidas. Alguns trios nem mais colocam o nome do bloco, pois o logotipo das empresas toma os espaços.
Para completar a distorção que talvez esteja passando despercebida por nossos gestores públicos e por empresários do ramo carnavalesco, trago à reflexão a necessidade de caminhões de apoio dentro dos blocos. Apoio de que e para quem? Um caminhão tão grande quanto o trio para levar ao longo da avenida os convidados e familiares dos patrocinadores, da banda e dos dirigentes do bloco, além de bar andante e posto médico? Por que nossas ruas públicas podem dar tanta comodidade a essas pessoas, enquanto os demais foliões contam com os postos médicos dispostos pela Secretaria da Saúde e todos os bares e vendedores ambulantes credenciados pela prefeitura para o Carnaval? À eles se permite um tratamento diferenciado?
Sugiro que pensemos urgentemente em trazer a manifestação cultural como a essência da nossa festa, pois assim os gestores públicos estarão devolvendo parte dos circuitos aos “foliões pipoca” e para todos aqueles que querem apreciar sem ter a obrigatoriedade de pagar por isso. Vale lembrar que são os impostos de todos os cidadãos que bancam esta grande festa e propicia uma propaganda gratuita para os governos municipal e estadual, dada a repercussão nacional e internacional do evento.
Este ano comemoramos os 60 anos da invenção do trio elétrico de Dodô e Osmar e os 25 anos do Carnaval contemporâneo. Relembramos músicas que fazem parte da história de cada folião como eu. Músicas de Moraes Moreira, Armandinho, Caetano Veloso, Banda Mel, Banda Cheiro de amor, Bloco Eva, Bloco Asa de Águia, ilê Ayiê, Apaches do Tororó, Timbalada e tantos outros. Vimos Pepeu Gomes, Márcia Short, Gerônimo, Tonho Matéria. Foi um grande encontro de gerações, daqueles que escreveram e continuam a escrever a história da maior festa de rua do mundo, que digo com orgulho, que é a festa da minha terrinha. E foi na pipoca ao som de Moraes, que eu encerrrei meu Carnaval.
Talvez por insistir em não me acostumar, meu olhar teime em se inquietar.
Foi exatamente nela que pensei quando brinquei o Carnaval de Salvador este ano.
Sou soteropolitana e desde minha infância participo do Carnaval da minha terrinha. Meus pais e tios foram foliões animados, daqueles que faziam fantasias iguais. Meus avós maternos moravam na Barroquinha, centro histórico da cidade, e desde quinta-feira, na abertura do Carnaval pelo Rei Momo, já entrávamos no clima da alegria momesca. Fiquei em bancos ao longo da Avenida Sete de Setembro, colecionei fitas do bloco “Os Internacionais”, circulava no calendário os dias que faltavam para a grande festa. Quando adolescente saí em blocos com trio - Papaléguas e Pinel. Deixava o bloco para comprar água ou cerveja, proporcionando uma renda extra para os ambulantes que, ao contrário de mim, estavam trabalhando. Vi nascer o Chiclete com Banana a partir da banda Escorpius do bloco Traz os Montes; vi Luiz Caldas com seus Acordes Verdes marcar a era do Carnaval contemporâneo, com o fricote; ouvi Ademar tocar Ave Maria na avenida; cantei várias e várias vezes, e canto até hoje, “minha menina Eva”. Adoro o Carnaval - sua alegria, sua espontaneidade, os homens vestidos de mulheres, mal ajambrados em saltos altos e batons carmim, o som eletrizante dos trios que invadem nossa audição e nossa alma com a genialidade de Armandinho Macedo, a beleza cênica de Daniela, a percussão de Brown, sem contar com a emoção de ver o Ilê passar, trazendo a beleza negra em seu esplendor, a história cantada em músicas poéticas ou poesias musicadas. Será que dá para entender tanto amor a uma festa onde não podemos contar com o luxo de banheiros e comida de excelente qualidade; onde o calor é grande, além de ficar pé em torno de 10 horas seguidas?
Estou com 45 anos e tanto a euforia quanto o pique não diminuíram ao longo do tempo. Hoje a segunda geração – minha filha adolescente - já brinca e gosta da folia tanto quanto eu e meu marido. No entanto, o meu olhar teima em trazer algumas reflexões importantes. Claro que o nosso Carnaval, que era mais nosso do que hoje, acompanhou as mudanças tanto do perfil do folião, hoje mais brasileiro do que apenas baiano, como a gestão da festa, antes blocos de amigos e vizinhos, hoje empresas altamente rentáveis, principalmente com a profissionalização das bandas, artistas internacionalmente consagrados. Como imperativo para gerir tantas demandas como segurança, logística, saúde, transporte e outros, que urgem num evento tão gigantesco como a maior festa de rua do mundo, os patrocínios deixaram de ser apoiadores discretos e passaram a ser co-gestores. Assim como camisas de jogadores de futebol estampam as empresas ao lado do escudo dos times, estamos nós a dividir o espaço da rua, da decoração dos trios, dos abadás, dos acessórios de mão e cabeça, com empresas patrocinadoras da grande folia.
Vocês então hão de perguntar: Qual o problema de tanta inquietação afinal?
Pois bem, o Carnaval de rua como o nosso é uma manifestação multicultural, multiracial, multisocial e todos os multi que se fizerem apropriados. Essa mistura tão diversificada sempre foi o grande charme, o ápice da liberdade de expressão de todas as “cores e bolsos” da nossa população. No entanto, para atender aos outros brasileiros que prestigiam nossa festa, estamos importando camarotes luxuosos e completamente desconectados com a essência do nosso carnaval. Eles são ótimas acomodações para o desfile das escolas de samba do Rio e de São Paulo, onde, como a própria palavra diz, é um desfile para o expectador apreciar a evolução da escola, seus figurinos, a música tema do ano. Nós somos participação, pé no chão, seja no bloco ou como “pipoca”, apelido carinhoso daqueles que não saem em blocos, que sentem no corpo a vibração dos trios e a alegria contagiante dos foliões.
Além disso, que saudade do colorido dos acessórios chamados “mamãe-sacode”, hoje substituídos por kits de promoção de produtos das empresas patrocinadoras, gerando uma grande poluição visual nas nossas avenidas. Alguns trios nem mais colocam o nome do bloco, pois o logotipo das empresas toma os espaços.
Para completar a distorção que talvez esteja passando despercebida por nossos gestores públicos e por empresários do ramo carnavalesco, trago à reflexão a necessidade de caminhões de apoio dentro dos blocos. Apoio de que e para quem? Um caminhão tão grande quanto o trio para levar ao longo da avenida os convidados e familiares dos patrocinadores, da banda e dos dirigentes do bloco, além de bar andante e posto médico? Por que nossas ruas públicas podem dar tanta comodidade a essas pessoas, enquanto os demais foliões contam com os postos médicos dispostos pela Secretaria da Saúde e todos os bares e vendedores ambulantes credenciados pela prefeitura para o Carnaval? À eles se permite um tratamento diferenciado?
Sugiro que pensemos urgentemente em trazer a manifestação cultural como a essência da nossa festa, pois assim os gestores públicos estarão devolvendo parte dos circuitos aos “foliões pipoca” e para todos aqueles que querem apreciar sem ter a obrigatoriedade de pagar por isso. Vale lembrar que são os impostos de todos os cidadãos que bancam esta grande festa e propicia uma propaganda gratuita para os governos municipal e estadual, dada a repercussão nacional e internacional do evento.
Este ano comemoramos os 60 anos da invenção do trio elétrico de Dodô e Osmar e os 25 anos do Carnaval contemporâneo. Relembramos músicas que fazem parte da história de cada folião como eu. Músicas de Moraes Moreira, Armandinho, Caetano Veloso, Banda Mel, Banda Cheiro de amor, Bloco Eva, Bloco Asa de Águia, ilê Ayiê, Apaches do Tororó, Timbalada e tantos outros. Vimos Pepeu Gomes, Márcia Short, Gerônimo, Tonho Matéria. Foi um grande encontro de gerações, daqueles que escreveram e continuam a escrever a história da maior festa de rua do mundo, que digo com orgulho, que é a festa da minha terrinha. E foi na pipoca ao som de Moraes, que eu encerrrei meu Carnaval.
Talvez por insistir em não me acostumar, meu olhar teime em se inquietar.
