A propaganda de cigarro foi proibida nos carros de fórmula I há alguns anos atrás, com os seguintes argumentos coerentes:
1 - O esporte não deve estar vinculado ao hábito de fumar, uma vez que tal hábito traz sérias conseqüências à saúde do fumante, diferentemente do esporte que promove a saúde física e mental.
2 - Quando associamos um hábito nocivo ao esporte, estamos enviando uma mensagem subliminar estimulando tal hábito no público que prestigia o esporte, principalmente os jovens, que são bastante abertos a novas experiências e modismos.
Mais tarde, o Ministério da Saúde proibiu qualquer divulgação, em mídia de massa, do cigarro.
Estou relembrando esses fatos, já incorporados ao cotidiano dos brasileiros, para trazer a tona o mesmo assunto de hábitos nocivos associados a esporte, desta vez na minha terra – Salvador – onde os dois principais times do Estado – Esporte Clube Bahia e Esporte Clube Vitória – fecharam acordo de patrocínio com a Brahma, já bastante divulgado em out-doors pela cidade.
O juíz, quando analisa um processo que tem uma jurisprudência sobre o assunto em questão, ou seja, não existe uma lei específica, mas os demais juízes entendem que tal postura ou procedimento é legítimo, conclui o parecer com base nos mesmos parâmetros.
Será que neste caso, a mesma proibição aplicada ao automobilismo é pertinente, sendo a empresa do ramo de bebida alcoólica e os times de futebol? O que diferencia o cigarro da cerveja, a fórmula I do futebol? Para mim...NADA.
Sendo o futebol um esporte popular, onde 10 entre 10 homens gostam e muitos jogam, esta parceria criará uma mensagem ao inconsciente coletivo de que a prática do esporte - jogar bola - e beber são compatíveis. Ledo engano!!! Todos sabemos que a prática de qualquer esporte requer disciplina e um controle do famoso tripé da saúde: boa alimentação – sono de qualidade – consumo mínimo de bebida alcoólica.
Por que será que os jogadores de qualquer esporte ficam em concentração antes das partidas? Por que será que todos os atletas e aqueles humanos normais que praticam esporte seguem um cardápio mais elaborado e balanceado? Por que será que nas famílias onde os pais bebem diariamente ou com maior freqüência, os filhos tendem a seguir o mesmo modelo?
Uma imagem de um banner ou de um out-door, uma publicidade em revista ou rádio, valem mais que mil argumentos lógicos, pois elas são estudadas por especialistas em comunicação e marketing para levar o indivíduo a desejar imediatamente uma cerveja gelada; é quase um mantra entoado na entrada dos estádios, nos bares ou botecos, onde a turma vai assistir ao jogo; na casa do amigo onde a galera vai torcer pelo seu time: Bahia – Brahma...Vitória – Brahma.
E depois do jogo, o que acontece? Os mesmos meios de comunicação que divulgam exaustivamente os produtos dos patrocinadores dos times ao longo do jogo, começam a divulgar as notícias sobre as diversas brigas, acidentes e muitas vezes até mesmo atentados, que acontecem ... por causa do excesso de bebida dos torcedores.
Tem ou não tem algo errado? Onde está o bom-senso, a lógica, a voz uníssona de médicos, psicólogos e juristas quando são entrevistados e alertam dos malefícios da bebida? Como definir o que é beber socialmente? O que é beber socialmente? Quantas doses de uma bebida correspondem ao socialmente? Como não se deixar seduzir frente à mensagem das propagandas? Como dissociar esporte de bebida, no país do futebol, quando estas empresas representam uma gorda fatia de receita disputadíssima pelos meios de comunicação?
A principal característica dos meios de comunicação em massa é a sua abrangência, sua capacidade de alcançar um brasileiro do Iapoque ao Chuí, seja pelas imagens da telinha ou pelas ondas de rádio. Quando se permite a associação de bebida a um esporte tão popular como o futebol, a mensagem que fica é: Beba e torça pelo seu time. A bebida que se escolhe é a do patrocinador – você tem alguma dúvida? – que é mencionado e repetidamente mencionado a cada dois minutos de jogo.
A única e cruel verdade é que, ao terminar o jogo, além de latas e garrafas vazias, que caberá aos garis recolher, corre-se o risco de apenas sair nas manchetes dos jornais o número de vítimas muitas vezes fatais que o maior esporte do planeta proporcionou, apagando o brilho das belas jogadas dos craques do nosso país do futebol.

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