quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

“Lixo Extraordinário”

A Possibilidade de Reciclar Ideologias e Atitudes

O documentário “Lixo Extraordinário” de Vik Muniz, artista plástico brasileiro internacionalmente reconhecido, permite a cada um de nós uma profunda reflexão sobre o olhar da sociedade – quer dizer de nós mesmos - sobre o ser humano que está à margem da dinâmica política e econômica do nosso país, em pleno século XXI. A ideia de Vik e do grupo que torna o documentário possível era fotografar pessoas comuns que sobrevivem do que catam no lixão do Jardim Gramacho no Rio de Janeiro - maior aterro sanitário aberto do mundo - transformar essas fotografias em arte, a partir do uso de materiais recicláveis coletados e perceber como a arte modificaria suas vidas. É aconvivência com as pessoas que permite conhecer seu cotidiano, suas histórias, suas perdas e sonhos, tornando o documentário tão comovente. Eis uma ótima oportunidade de fazer a crítica da vida cotidiana, revendo os conceitos da psicologia social de Pichon Riviere:

IDEOLOGIA – Os “personagens reais” fazem parte da parcela da população menos favorecida economicamente, morando em condições subumanas, sem água potável, rede de esgoto, casebres de madeira e papelão onde famílias de quatro ou cinco integrantes dividem o mesmo espaço. São invisíveis aos que estão gozando dos direitos humanos tão em voga na pauta internacional. Uma das catadoras tinha emprego, assim como seu marido, e depois de ficar desempregados, não houve outra solução imediata a não ser catarem materiais no lixão para sobreviver. A possibilidade de inserção no mercado de trabalho ficou distante diante das filas em programas governamentais. Somos um país que não usufruiu da política de “bem estar social”, onde o poder público garante educação e saúde para os cidadãos, e sofremos a incoerência das exigências cada vez maiores para se trabalhar dignamente, sem a devida escolaridade exigida pelo mercado de trabalho. Além de invisíveis, cada vez mais desassistidos.

CONDIÇÕES CONCRETAS DE EXISTÊNCIA - No início do documentário acompanhamos a história de uma jovem que aos 19 anos tem dois filhos, cujo pai das crianças é envolvido com drogas e, por isso, não moram juntos. Ela não estudou muito, os filhos moram com a avó e quinzenalmente ela deixa o lixão para levar dinheiro para eles. A minha filha tem 22 anos, estuda biomedicina, tem casa, comida e roupa lavada, o que permite a ela se dedicar integralmente aos estudos e projetos profissionais futuros, além de usufruir de uma vida social saudável. O que distingui tanto a vida de duas jovens bonitas e com sonhos? São as condições concretas de existência de cada uma; a falta de uma estrutura mínima de moradia, educação, saúde e emprego para os pais, tira de uma jovem a infância e a adolescência, quando esta vai morar com o companheiro aos 12 anos de idade. Isto não é determinismo e sim a total ausência do poder público que pune os menos favorecidos. Voltamos então à questão ideológica, onde as causas estão intrinsecamente ligadas em rede.

PROTAGONISMO – O ser humano está inserido em um contexto sócio-histórico, onde é produto e também produtor do seu meio. Em meio a tanto absurdo, um dos jovens entrevistados - Sebastião - indignado, resolveu abrir uma associação de catadores juntamente com um amigo da comunidade. Para todos os demais moradores, Tião era um idealista, um sonhador. Ele não desistiu, saiu da queixa e agiu. Como protagonista, mobilizou os catadores, fez passeata em frente à Prefeitura, conseguiu ser ouvido, organizou na associação o entreposto de venda dos materiais recicláveis com empresas e indústrias de plástico e papelão, organizou uma biblioteca com a ajuda de “Zumbi”, outro catador que se encarregava de salvar os livros em meio ao lixo, dentre outras iniciativas. Ao ser protagonista, Tião saiu da queixa e conectou-se com o que tinha e não com a falta, para dar início ao processo de conscientização dos catadores, resgatando sua dignidade e autoestima. A falta foi a sua maior motivação! Com parte da venda do quadro onde foi o manequim, Tião ampliou a biblioteca, comprou computadores e qualifica os catadores com novos conhecimentos para quando o aterro for desativado em 2012. Ele fez a diferença a tal ponto, que hoje é o representante do movimento nacional dos catadores de material reciclável e já organizou o primeiro encontro nacional da classe.

Ao pensar em fazer uma intervenção artística na comunidade, Vik se vê mobilizado pela força e dignidade de todos, pelos exemplos de solidariedade como o da senhora que era cozinheira e, fazendo sol ou chuva, sob tenda de lona e panelas velhas catadas no lixão, fazia a refeição das pessoas com o que elas encontravam em “bom estado”, diga-se, não deteriorado. Sem conseguir manter tanto a distância ótima, relata várias vezes que foi pobre na infância e sempre alimentou o sonho de ser artista. Quando conseguiu atingir o sucesso, queria ter o máximo de coisas, chegando a comprar quinquilharias desnecessárias. Com o tempo e a maturidade, incluiu o olhar social no seu trabalho e vem fazendo isso desde então.

Dialeticamente, em uma das cenas do documentário, Vik diz para Tião que não sabe como as pessoas pagam tanto pelo seu trabalho. Quem sabe uma dose de incômodo com a realidade tão distinta entre o mundo da arte e as condições de vida da maioria da população do seu país e de outros países por onde sua arte circula.