domingo, 10 de abril de 2011

Falando de Flores...

Rosas, “onze horas”, margaridas, tafetões, ixórias e bromélias resolveram fazer um encontro semanal, para pensar conjuntamente como se organizar em forma de mandala ao redor da estátua de Vênus. Era um presente a todos que passavam e apreciavam a beleza da deusa. Elas estavam motivadas com a tarefa e as reuniões aconteciam ao cair da tarde, perto do lago, quando o sol já sumia no horizonte. O jardineiro ficava por perto e acompanhava aquele movimento de cores e aromas, deixando seu vasto conhecimento perceber a hora de fazer alguma intervenção para facilitar o processo.

Em uma das reuniões, as rosas falam como era importante elas ficarem numa posição onde somente sentissem o sol pela manhã, pois suas folhas eram muito frágeis e finas e os raios solares mais quentes podiam queimá-las. As “onze horas”, por sua vez, dizem que o que dá em Chico não dá em Francisco, pois sem o sol mais forte sua beleza não poderia ser vista nem apreciada por quem passasse; elas literalmente não se abriam em flor. Todas riem com a brincadeira. As bromélias refletem como a história de cada uma - sua origem de países diversos, a textura das folhas e a grossura dos caules, determinam como cada uma pode se expor ao sol e deixar toda a beleza surpreender os transeuntes. Também lembra como algumas espécies de bromélia não são apreciadas por estarem suspensas em árvores, pela necessidade que têm de sombras em frondosas copas. As ixórias falam de sua origem indiana e como se adaptaram bem ao calor do nordeste brasileiro e até receberam um carinhoso apelido de “rosa do sertão”. Elas se sentem felizes com a homenagem e lembra que dialeticamente as rosas não podem ser do sertão pelas suas características nórdicas, de clima mais ameno. “É interessante como aqueles que nos apreciam têm uma imagem nossa associada à outra flor que muitas vezes em nada se parecem. Formam um jardim imaginário no seu mundo interno onde nem sempre estamos bem colocadas e criam expectativas que não podemos atender.”

Algumas reuniões já haviam acontecido, quando um dia a margarida fala de um sentimento que há muito lhe incomoda: “muitas vezes quando as pessoas passam por mim, olham e dizem que pareço rosa, como se toda a minha especificidade não fosse valorizada. Gosto muito das amigas rosas e sei o quanto somos diferentes na essência, mesmo que nos confundam. Sei que não são elas que tiram meu brilho e sim a forma como as pessoas me vêem. Talvez pensem que rosas são mais chiques do que margaridas. Sabe-se lá! Mesmo assim prefiro ser vista como margarida, que sou, a do campo, que em tantas paisagens dão um colorido primaveril às obras de arte.”

O jardineiro nesse dia resolveu intervir e trouxe ao grupo a reflexão de como estava o grupo e sua mútua representação interna. As flores tafetão disseram que as rosas e margaridas sempre lhe incomodavam, pois na presença delas ninguém olhava muito para suas formas e cores. As bromélias disseram que muitas vezes as outras nem sabiam que elas eram flores, pelas suas folhas mais encorpadas e seu habitat diferente e isso lhes deixavam inseguras.

Vendo como as colegas estavam fragilizadas, as rosas também falaram dos seus sentimentos. “Muitas vezes se criam expectativas além daquelas que podemos atender dentro da nossa história. Nem sempre abrimos como desejam, nem sempre cheiramos tanto como imaginam, nem sempre somos tão belas como fantasiam as estórias e livros e lidar com isso também traz um incômodo, um sofrimento.. Mesmo assim continuamos rosas, com toda a nossa essência de rosas.

O jardineiro sinaliza o término da reunião daquele dia, dizendo a todas que o grupo refletiu sobre seus sentimentos e histórias e que assim era o processo para a construção da tarefa.