Sou assistida por médicos amorosos e competentes e estou indignada ao ver tantas pessoas privadas de saúde pública de qualidade.
Quem se importa com a Saúde do brasileiro?
Durmo tranqüila ao ver meus filhos acolhidos e confortáveis em suas camas quentes e tenho insônia ao imaginar tantas crianças sem lares, em camas improvisadas de papelão, somente acolhidas pela escuridão da noite.
Quem se importa com cada criança que será o futuro do Brasil?
Trabalho motivada e bem remunerada, transmitindo, àqueles com quem interajo, os conhecimentos que acredito serem valiosos e sinto-me constrangida ao ver cidadãos brasileiros que mal conseguem ler e compreender um texto e mendigam alguns reais para alimentar a si e sua família.
Quem se importa com a Educação que dá dignidade ao cidadão?
Agradeço a Deus todos os dias a pintura da natureza que contemplo da janela do meu quarto e penso sobre a qualidade de vida das pessoas que partilham paredes úmidas e rachadas em favelas e barracos perigosamente localizados.
Quem se importa com a Habitação daqueles que também pagam impostos?
Sou respeitada e bem tratada em cada local que adentro e fico estarrecida com o preconceito social e racial que permeiam as relações no cotidiano da minha cidade, do meu Estado, do meu país.
Quem se importa com a isonomia que está na Constituição? Pré - requisito de uma democracia plena?
Faço planos com meu marido: viagens de férias, cursos de aperfeiçoamento, uma nova casa e vejo com tristeza cidadãos brasileiros ocupando a mente não com sonhos, mas com o fantasma do desemprego, da falta de qualificação técnica, da exclusão social.
Quem se importa com a Saúde Mental dos cidadãos brasileiros?
Fico sensibilizada com a ingênua fé do povo, quando pede a Deus aquilo que cabe aos gestores públicos proverem e revolta-me precisar recorrer ao Ministério Público para fazer valer o direito de Jandira, nossa querida colaboradora, de ser internada e operada.
O que acontece a todos os brasileiros que por ignorância não usufruem dos seus direitos de cidadão?
Fico impressionada ao ver as classes abastadas discorrendo sobre as cenas de violência com tanta naturalidade em suas televisões HD de 42 polegadas, enquanto as classes menos favorecidas presenciam crimes ao vivo e a cores na porta de suas casas.
Por onde anda a consciência de coletividade e a empatia pelos brasileiros que viram estatística diariamente nos meios de comunicação?
Pago escola particular para meus filhos, enquanto a grande maioria das crianças e adolescentes do Brasil enfrenta salas de aula públicas sem recursos tecnológicos modernos, professores mal remunerados, salas sem cadeiras confortáveis, cantinas a espera de merenda escolar, simplesmente por falta de comprometimento dos governantes.
Quem se importa com um planejamento público eficaz com o imposto arrecadado, pago por cada brasileiro?
Este desabafo é apenas o registro da minha mais profunda indignação; indignação pelo desrespeito amplo, geral e irrestrito que eu tenho presenciado, ouvido e principalmente sentido, quando o meu olhar se amplia, se colore de verde e amarelo e se defronta com instituições públicas carentes do espírito do dever cívico, do servir àqueles que são sua razão de existência – o cidadão.
Não há mobilização se não houver conscientização do que significa ser um cidadão, conhecedor dos seus direitos e deveres. Para isto, somente a Educação pode ampliar horizontes; tornar cada um protagonista do seu presente e do seu futuro; fortalecer as comunidades e associações na busca pela qualidade de vida dos seus integrantes; permitir usufruir plenamente a dignidade, a inclusão, a cidadania.
Convido a todos para acordar diariamente com um olhar mais crítico da nossa vida cotidiana, pois somente assim poderemos nos indignar e tomar atitudes que tornem a vida mais completa não somente como cidadãos, mas principalmente como seres humanos.
Vamos problematizar o que está tão naturalizado, tão aceitável, tão comum. Assim criaremos o saudável hábito de pensar sempre, de dialogar sempre, de fazer sempre o outro ouvir pontos de vista diferentes, de questionar sempre o que é normal, padrão, de não se acomodar.
“A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”