quarta-feira, 27 de julho de 2011

Definindo Necessidade - Objetivo - Tarefa

Quando a gestão pública não define a necessidade da população e, consequentemente, o objetivo a ser atingido, fica difícil planejar as ações para realizar a tarefa da melhor forma. Vejam o caso do tal projeto que liga o Retiro ao Aeroporto, com pedágio.


Para mim, a necessidade de Salvador hoje é dar qualidade de locomoção aos seus cidadãos e não reduzir quantidade de carros. Se temos qualidade no transporte público, incluindo segurança, naturalmente deixaremos o carro na garagem para o final de semana e usaremos o mais econômico. Redução da quantidade de carros nas vias públicas será uma consequência natural da ação. Caso contrário, continuaremos no engarrafamento. O tal projeto apenas distribui os carros em mais uma via a ser construída e aqueles que não tem carro continuam sofrendo para cumprir horário ou mesmo aproveitar seu momento de lazer. O governo não estará atendendo a uma necessidade da população, que é a sua missão como governo. Viu como é importante identificar claramente a necessidade antes de pensar em solução? Erramos o alvo e gastamos dinheiro público equivocadamente.


Por outro lado, o governo municipal traz um projeto de melhoria do transporte público interessante e não tenho a menor esperança que será realizado, pela nossa grande experiência nesses 11 anos do metrô fantasma.E aí? O governo estadual, no seu programa AgendaBahia, poderia compartilhar a necessidade da população com o governo municipal, unindo forças e recursos, inclusive economizando ambos também, ao invés de projetos diferentes e com objetivos diferentes.


Será que estou divagando muito, querendo muito ou desejando muito ver minha cidade ser administrada melhor, permitindo que cada habitante possa viver uma cidadania plena, com a liberdade, qualidade e segurança de ir e vir preservadas, por uma gestão eficaz, simplesmente isso, EFICAZ? Vamos utilizar os meios eletrônicos para demonstrar nossa indignação, nossas opiniões, nossas ideias. Vamos compartilhar cidadania.

domingo, 10 de abril de 2011

Falando de Flores...

Rosas, “onze horas”, margaridas, tafetões, ixórias e bromélias resolveram fazer um encontro semanal, para pensar conjuntamente como se organizar em forma de mandala ao redor da estátua de Vênus. Era um presente a todos que passavam e apreciavam a beleza da deusa. Elas estavam motivadas com a tarefa e as reuniões aconteciam ao cair da tarde, perto do lago, quando o sol já sumia no horizonte. O jardineiro ficava por perto e acompanhava aquele movimento de cores e aromas, deixando seu vasto conhecimento perceber a hora de fazer alguma intervenção para facilitar o processo.

Em uma das reuniões, as rosas falam como era importante elas ficarem numa posição onde somente sentissem o sol pela manhã, pois suas folhas eram muito frágeis e finas e os raios solares mais quentes podiam queimá-las. As “onze horas”, por sua vez, dizem que o que dá em Chico não dá em Francisco, pois sem o sol mais forte sua beleza não poderia ser vista nem apreciada por quem passasse; elas literalmente não se abriam em flor. Todas riem com a brincadeira. As bromélias refletem como a história de cada uma - sua origem de países diversos, a textura das folhas e a grossura dos caules, determinam como cada uma pode se expor ao sol e deixar toda a beleza surpreender os transeuntes. Também lembra como algumas espécies de bromélia não são apreciadas por estarem suspensas em árvores, pela necessidade que têm de sombras em frondosas copas. As ixórias falam de sua origem indiana e como se adaptaram bem ao calor do nordeste brasileiro e até receberam um carinhoso apelido de “rosa do sertão”. Elas se sentem felizes com a homenagem e lembra que dialeticamente as rosas não podem ser do sertão pelas suas características nórdicas, de clima mais ameno. “É interessante como aqueles que nos apreciam têm uma imagem nossa associada à outra flor que muitas vezes em nada se parecem. Formam um jardim imaginário no seu mundo interno onde nem sempre estamos bem colocadas e criam expectativas que não podemos atender.”

Algumas reuniões já haviam acontecido, quando um dia a margarida fala de um sentimento que há muito lhe incomoda: “muitas vezes quando as pessoas passam por mim, olham e dizem que pareço rosa, como se toda a minha especificidade não fosse valorizada. Gosto muito das amigas rosas e sei o quanto somos diferentes na essência, mesmo que nos confundam. Sei que não são elas que tiram meu brilho e sim a forma como as pessoas me vêem. Talvez pensem que rosas são mais chiques do que margaridas. Sabe-se lá! Mesmo assim prefiro ser vista como margarida, que sou, a do campo, que em tantas paisagens dão um colorido primaveril às obras de arte.”

O jardineiro nesse dia resolveu intervir e trouxe ao grupo a reflexão de como estava o grupo e sua mútua representação interna. As flores tafetão disseram que as rosas e margaridas sempre lhe incomodavam, pois na presença delas ninguém olhava muito para suas formas e cores. As bromélias disseram que muitas vezes as outras nem sabiam que elas eram flores, pelas suas folhas mais encorpadas e seu habitat diferente e isso lhes deixavam inseguras.

Vendo como as colegas estavam fragilizadas, as rosas também falaram dos seus sentimentos. “Muitas vezes se criam expectativas além daquelas que podemos atender dentro da nossa história. Nem sempre abrimos como desejam, nem sempre cheiramos tanto como imaginam, nem sempre somos tão belas como fantasiam as estórias e livros e lidar com isso também traz um incômodo, um sofrimento.. Mesmo assim continuamos rosas, com toda a nossa essência de rosas.

O jardineiro sinaliza o término da reunião daquele dia, dizendo a todas que o grupo refletiu sobre seus sentimentos e histórias e que assim era o processo para a construção da tarefa.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

“Lixo Extraordinário”

A Possibilidade de Reciclar Ideologias e Atitudes

O documentário “Lixo Extraordinário” de Vik Muniz, artista plástico brasileiro internacionalmente reconhecido, permite a cada um de nós uma profunda reflexão sobre o olhar da sociedade – quer dizer de nós mesmos - sobre o ser humano que está à margem da dinâmica política e econômica do nosso país, em pleno século XXI. A ideia de Vik e do grupo que torna o documentário possível era fotografar pessoas comuns que sobrevivem do que catam no lixão do Jardim Gramacho no Rio de Janeiro - maior aterro sanitário aberto do mundo - transformar essas fotografias em arte, a partir do uso de materiais recicláveis coletados e perceber como a arte modificaria suas vidas. É aconvivência com as pessoas que permite conhecer seu cotidiano, suas histórias, suas perdas e sonhos, tornando o documentário tão comovente. Eis uma ótima oportunidade de fazer a crítica da vida cotidiana, revendo os conceitos da psicologia social de Pichon Riviere:

IDEOLOGIA – Os “personagens reais” fazem parte da parcela da população menos favorecida economicamente, morando em condições subumanas, sem água potável, rede de esgoto, casebres de madeira e papelão onde famílias de quatro ou cinco integrantes dividem o mesmo espaço. São invisíveis aos que estão gozando dos direitos humanos tão em voga na pauta internacional. Uma das catadoras tinha emprego, assim como seu marido, e depois de ficar desempregados, não houve outra solução imediata a não ser catarem materiais no lixão para sobreviver. A possibilidade de inserção no mercado de trabalho ficou distante diante das filas em programas governamentais. Somos um país que não usufruiu da política de “bem estar social”, onde o poder público garante educação e saúde para os cidadãos, e sofremos a incoerência das exigências cada vez maiores para se trabalhar dignamente, sem a devida escolaridade exigida pelo mercado de trabalho. Além de invisíveis, cada vez mais desassistidos.

CONDIÇÕES CONCRETAS DE EXISTÊNCIA - No início do documentário acompanhamos a história de uma jovem que aos 19 anos tem dois filhos, cujo pai das crianças é envolvido com drogas e, por isso, não moram juntos. Ela não estudou muito, os filhos moram com a avó e quinzenalmente ela deixa o lixão para levar dinheiro para eles. A minha filha tem 22 anos, estuda biomedicina, tem casa, comida e roupa lavada, o que permite a ela se dedicar integralmente aos estudos e projetos profissionais futuros, além de usufruir de uma vida social saudável. O que distingui tanto a vida de duas jovens bonitas e com sonhos? São as condições concretas de existência de cada uma; a falta de uma estrutura mínima de moradia, educação, saúde e emprego para os pais, tira de uma jovem a infância e a adolescência, quando esta vai morar com o companheiro aos 12 anos de idade. Isto não é determinismo e sim a total ausência do poder público que pune os menos favorecidos. Voltamos então à questão ideológica, onde as causas estão intrinsecamente ligadas em rede.

PROTAGONISMO – O ser humano está inserido em um contexto sócio-histórico, onde é produto e também produtor do seu meio. Em meio a tanto absurdo, um dos jovens entrevistados - Sebastião - indignado, resolveu abrir uma associação de catadores juntamente com um amigo da comunidade. Para todos os demais moradores, Tião era um idealista, um sonhador. Ele não desistiu, saiu da queixa e agiu. Como protagonista, mobilizou os catadores, fez passeata em frente à Prefeitura, conseguiu ser ouvido, organizou na associação o entreposto de venda dos materiais recicláveis com empresas e indústrias de plástico e papelão, organizou uma biblioteca com a ajuda de “Zumbi”, outro catador que se encarregava de salvar os livros em meio ao lixo, dentre outras iniciativas. Ao ser protagonista, Tião saiu da queixa e conectou-se com o que tinha e não com a falta, para dar início ao processo de conscientização dos catadores, resgatando sua dignidade e autoestima. A falta foi a sua maior motivação! Com parte da venda do quadro onde foi o manequim, Tião ampliou a biblioteca, comprou computadores e qualifica os catadores com novos conhecimentos para quando o aterro for desativado em 2012. Ele fez a diferença a tal ponto, que hoje é o representante do movimento nacional dos catadores de material reciclável e já organizou o primeiro encontro nacional da classe.

Ao pensar em fazer uma intervenção artística na comunidade, Vik se vê mobilizado pela força e dignidade de todos, pelos exemplos de solidariedade como o da senhora que era cozinheira e, fazendo sol ou chuva, sob tenda de lona e panelas velhas catadas no lixão, fazia a refeição das pessoas com o que elas encontravam em “bom estado”, diga-se, não deteriorado. Sem conseguir manter tanto a distância ótima, relata várias vezes que foi pobre na infância e sempre alimentou o sonho de ser artista. Quando conseguiu atingir o sucesso, queria ter o máximo de coisas, chegando a comprar quinquilharias desnecessárias. Com o tempo e a maturidade, incluiu o olhar social no seu trabalho e vem fazendo isso desde então.

Dialeticamente, em uma das cenas do documentário, Vik diz para Tião que não sabe como as pessoas pagam tanto pelo seu trabalho. Quem sabe uma dose de incômodo com a realidade tão distinta entre o mundo da arte e as condições de vida da maioria da população do seu país e de outros países por onde sua arte circula.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desabafo Verde e Amarelo

Sou assistida por médicos amorosos e competentes e estou indignada ao ver tantas pessoas privadas de saúde pública de qualidade.

Quem se importa com a Saúde do brasileiro?

Durmo tranqüila ao ver meus filhos acolhidos e confortáveis em suas camas quentes e tenho insônia ao imaginar tantas crianças sem lares, em camas improvisadas de papelão, somente acolhidas pela escuridão da noite.

Quem se importa com cada criança que será o futuro do Brasil?

Trabalho motivada e bem remunerada, transmitindo, àqueles com quem interajo, os conhecimentos que acredito serem valiosos e sinto-me constrangida ao ver cidadãos brasileiros que mal conseguem ler e compreender um texto e mendigam alguns reais para alimentar a si e sua família.

Quem se importa com a Educação que dá dignidade ao cidadão?

Agradeço a Deus todos os dias a pintura da natureza que contemplo da janela do meu quarto e penso sobre a qualidade de vida das pessoas que partilham paredes úmidas e rachadas em favelas e barracos perigosamente localizados.

Quem se importa com a Habitação daqueles que também pagam impostos?

Sou respeitada e bem tratada em cada local que adentro e fico estarrecida com o preconceito social e racial que permeiam as relações no cotidiano da minha cidade, do meu Estado, do meu país.

Quem se importa com a isonomia que está na Constituição? Pré - requisito de uma democracia plena?

Faço planos com meu marido: viagens de férias, cursos de aperfeiçoamento, uma nova casa e vejo com tristeza cidadãos brasileiros ocupando a mente não com sonhos, mas com o fantasma do desemprego, da falta de qualificação técnica, da exclusão social.

Quem se importa com a Saúde Mental dos cidadãos brasileiros?

Fico sensibilizada com a ingênua fé do povo, quando pede a Deus aquilo que cabe aos gestores públicos proverem e revolta-me precisar recorrer ao Ministério Público para fazer valer o direito de Jandira, nossa querida colaboradora, de ser internada e operada.

O que acontece a todos os brasileiros que por ignorância não usufruem dos seus direitos de cidadão?

Fico impressionada ao ver as classes abastadas discorrendo sobre as cenas de violência com tanta naturalidade em suas televisões HD de 42 polegadas, enquanto as classes menos favorecidas presenciam crimes ao vivo e a cores na porta de suas casas.

Por onde anda a consciência de coletividade e a empatia pelos brasileiros que viram estatística diariamente nos meios de comunicação?

Pago escola particular para meus filhos, enquanto a grande maioria das crianças e adolescentes do Brasil enfrenta salas de aula públicas sem recursos tecnológicos modernos, professores mal remunerados, salas sem cadeiras confortáveis, cantinas a espera de merenda escolar, simplesmente por falta de comprometimento dos governantes.

Quem se importa com um planejamento público eficaz com o imposto arrecadado, pago por cada brasileiro?

Este desabafo é apenas o registro da minha mais profunda indignação; indignação pelo desrespeito amplo, geral e irrestrito que eu tenho presenciado, ouvido e principalmente sentido, quando o meu olhar se amplia, se colore de verde e amarelo e se defronta com instituições públicas carentes do espírito do dever cívico, do servir àqueles que são sua razão de existência – o cidadão.

Não há mobilização se não houver conscientização do que significa ser um cidadão, conhecedor dos seus direitos e deveres. Para isto, somente a Educação pode ampliar horizontes; tornar cada um protagonista do seu presente e do seu futuro; fortalecer as comunidades e associações na busca pela qualidade de vida dos seus integrantes; permitir usufruir plenamente a dignidade, a inclusão, a cidadania.

Convido a todos para acordar diariamente com um olhar mais crítico da nossa vida cotidiana, pois somente assim poderemos nos indignar e tomar atitudes que tornem a vida mais completa não somente como cidadãos, mas principalmente como seres humanos.

Vamos problematizar o que está tão naturalizado, tão aceitável, tão comum. Assim criaremos o saudável hábito de pensar sempre, de dialogar sempre, de fazer sempre o outro ouvir pontos de vista diferentes, de questionar sempre o que é normal, padrão, de não se acomodar.

“A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

80 Anos de muita dedicação - Para minha tia Angé

Angelina quer dizer descendente de anjos.

Como tia Filomena estava inspirada ao colocar-lhe este nome! Como toda mãe tem um sexto sentido, um canal aberto com Deus, tia Filomena não tinha dúvidas que sua filha tinha uma missão muito especial – ser médica. Ser médica é ser um anjo na Terra, é um papel, dentre tantos outros da nossa vida, que se faz onipresente, pois vem com o desafio de cuidar, acolher, ouvir, ficar atento ao outro nos seus momentos mais frágeis, mais marcantes. E você, Drª Angelina, soube e continua sabendo exercer este papel com toda maestria, com toda sabedoria, com todo amor, mesmo quando se desnuda da profissão e ri ou chora a emoção que vem da alma apenas de Angé, a tia querida por todos nós.

Como diz o significado de seu nome de origem latim... “você está sempre pronta a se aventurar, cheia de energia, com uma personalidade ativa e decidida. Não vê graça numa vida sem desafios. E por ser uma líder por natureza, atrai as outras pessoas com seu entusiasmo.”

Querida tia Angé, o álbum da minha família tem tantas fotos suas...aliás, faltou a foto que você me segurava na maternidade, na sala de parto, com meus cinco quilos. Seria a primeira de toda a minha história. Mas logo depois tem você me segurando na casa de minha avó Elvira, tem você comemorando meu primeiro ano, segundo, terceiro, minha comunhão, meus quinze anos, minha formatura, carregando meus filhos pequenos ao nascerem, sim, pois além das fotos no quarto do Hospital Espanhol, lá estava você e Dr. Paulo a contar piadas enquanto eu fazia força para ver o rostinho dos rebentos que chegavam – Giulia e Pedro.

Além das fotografias, meu coração é cheio de prazerosos momentos na casa de meus avós na Barroquinha, comendo a famosa macarronada italiana, fatias de parida, tomando vinho com água que parecia suco de uva; na casa da Amaralina, em dias natalinos, aniversários, regados a muita risada com sua habilidade em contar “causos” e piadas juntamente com tia Regina. E também de momentos muito especiais, quando a solidariedade, a entrega, o carinho, o laço de família tão forte que nos une, se fez presente e tão importante na partida de meu avô Francisco, de minha avó Elvira, de minha mãe Anita.

Saúde e Paz! Parabéns pelos 80 anos de uma vida admirada por todos nós. Que possamos colocar ainda muitas novas fotos em nossos álbuns e encher nossos corações de alegria com novas conquistas, novas histórias, novas aventuras.

Que Deus continue a iluminar a sua vida, os seus caminhos, suas palavras...sua alma que descende de anjos.

domingo, 2 de maio de 2010

Esporte nada Espetacular

A propaganda de cigarro foi proibida nos carros de fórmula I há alguns anos atrás, com os seguintes argumentos coerentes:

1 - O esporte não deve estar vinculado ao hábito de fumar, uma vez que tal hábito traz sérias conseqüências à saúde do fumante, diferentemente do esporte que promove a saúde física e mental.
2 - Quando associamos um hábito nocivo ao esporte, estamos enviando uma mensagem subliminar estimulando tal hábito no público que prestigia o esporte, principalmente os jovens, que são bastante abertos a novas experiências e modismos.

Mais tarde, o Ministério da Saúde proibiu qualquer divulgação, em mídia de massa, do cigarro.
Estou relembrando esses fatos, já incorporados ao cotidiano dos brasileiros, para trazer a tona o mesmo assunto de hábitos nocivos associados a esporte, desta vez na minha terra – Salvador – onde os dois principais times do Estado – Esporte Clube Bahia e Esporte Clube Vitória – fecharam acordo de patrocínio com a Brahma, já bastante divulgado em out-doors pela cidade.

O juíz, quando analisa um processo que tem uma jurisprudência sobre o assunto em questão, ou seja, não existe uma lei específica, mas os demais juízes entendem que tal postura ou procedimento é legítimo, conclui o parecer com base nos mesmos parâmetros.

Será que neste caso, a mesma proibição aplicada ao automobilismo é pertinente, sendo a empresa do ramo de bebida alcoólica e os times de futebol? O que diferencia o cigarro da cerveja, a fórmula I do futebol? Para mim...NADA.

Sendo o futebol um esporte popular, onde 10 entre 10 homens gostam e muitos jogam, esta parceria criará uma mensagem ao inconsciente coletivo de que a prática do esporte - jogar bola - e beber são compatíveis. Ledo engano!!! Todos sabemos que a prática de qualquer esporte requer disciplina e um controle do famoso tripé da saúde: boa alimentação – sono de qualidade – consumo mínimo de bebida alcoólica.
Por que será que os jogadores de qualquer esporte ficam em concentração antes das partidas? Por que será que todos os atletas e aqueles humanos normais que praticam esporte seguem um cardápio mais elaborado e balanceado? Por que será que nas famílias onde os pais bebem diariamente ou com maior freqüência, os filhos tendem a seguir o mesmo modelo?

Uma imagem de um banner ou de um out-door, uma publicidade em revista ou rádio, valem mais que mil argumentos lógicos, pois elas são estudadas por especialistas em comunicação e marketing para levar o indivíduo a desejar imediatamente uma cerveja gelada; é quase um mantra entoado na entrada dos estádios, nos bares ou botecos, onde a turma vai assistir ao jogo; na casa do amigo onde a galera vai torcer pelo seu time: Bahia – Brahma...Vitória – Brahma.

E depois do jogo, o que acontece? Os mesmos meios de comunicação que divulgam exaustivamente os produtos dos patrocinadores dos times ao longo do jogo, começam a divulgar as notícias sobre as diversas brigas, acidentes e muitas vezes até mesmo atentados, que acontecem ... por causa do excesso de bebida dos torcedores.

Tem ou não tem algo errado? Onde está o bom-senso, a lógica, a voz uníssona de médicos, psicólogos e juristas quando são entrevistados e alertam dos malefícios da bebida? Como definir o que é beber socialmente? O que é beber socialmente? Quantas doses de uma bebida correspondem ao socialmente? Como não se deixar seduzir frente à mensagem das propagandas? Como dissociar esporte de bebida, no país do futebol, quando estas empresas representam uma gorda fatia de receita disputadíssima pelos meios de comunicação?

A principal característica dos meios de comunicação em massa é a sua abrangência, sua capacidade de alcançar um brasileiro do Iapoque ao Chuí, seja pelas imagens da telinha ou pelas ondas de rádio. Quando se permite a associação de bebida a um esporte tão popular como o futebol, a mensagem que fica é: Beba e torça pelo seu time. A bebida que se escolhe é a do patrocinador – você tem alguma dúvida? – que é mencionado e repetidamente mencionado a cada dois minutos de jogo.

A única e cruel verdade é que, ao terminar o jogo, além de latas e garrafas vazias, que caberá aos garis recolher, corre-se o risco de apenas sair nas manchetes dos jornais o número de vítimas muitas vezes fatais que o maior esporte do planeta proporcionou, apagando o brilho das belas jogadas dos craques do nosso país do futebol.

terça-feira, 30 de março de 2010

Construindo Pontes entre Sócrates e a PNL

Sócrates, o grande pai da filosofia ocidental, conhecido pela célebre frase - “só sei que nada sei”, nos deixou como aprendizado de seus famosos diálogos, questionar o próprio saber. Ele ouvia seu interlocutor com atenção e depois esmiuçava cada resposta, buscando o significado das palavras. E a cada esmiuçada, surgia uma nova pergunta e assim continuava. Claro que um diálogo tão profundo, tão atento às palavras e seus sentidos, leva as pessoas a uma espécie de catarse, a uma possibilidade de autoconhecimento, possibilidade esta que surge quando ouvimos a nós mesmos e ao ouvir a nossa voz ecoar no espaço, temos a oportunidade de repensar aquilo que acabamos de dizer, de reestruturar nossas ideias e as emoções embutidas, devolvendo-as renovadas.

É nesse momento que o método de Sócrates, que viveu bem antes de Cristo, ecoa e tem paralelo na Programação Neurolinguística. Para esta ferramenta da comunicação, a audição cuidadosa é a grande qualidade de um interlocutor. Quando realmente estamos atentos ao que o outro diz, temos a preciosa percepção da realidade que ele constrói, seu mundo interior. Podemos retroalimentar esse diálogo, nos entregando a resposta que surge, sem julgamentos nem críticas, apenas penetrando neste mundo interior para destrinchar e buscar entender o significado de cada palavra, as emoções contidas nela, muitas vezes suprimidas e sufocadas, que berram aos nossos ouvidos. Ao destrinchar, devolvemos a reflexão em forma de uma nova pergunta. E neste momento, construímos a ponte que permite esse encontro de almas e de ideias, absorvendo um pouco do outro e deixando um pouco de nós nas nossas indagações. Existem várias técnicas que permitem fazer esse processo – metamodelos e metaprogramas – que ajudam a identificar os padrões que codificam a ideia em linguagem, ou seja, que traz esse mundo interior à tona, à luz do outro.

Outro ponto que Sócrates e a PNL têm em comum, diz respeito ao fato do processo ser num tom completamente respeitoso. Para a Programação Neurolinguística, uma comunicação de excelência é ecológica, ou seja, é uma relação de ganha-ganha, onde o respeito é o pilar para se construir a ponte entre duas pessoas que dialogam e não um muro. A ponte permite que o outro venha a mim e eu possa ir ao outro; o muro impõe limites e barreiras intransponíveis.

A comunicação clara e atenta, compreendendo-se o que mais de subjetivo existe – ideia e emoção, que é socrática e o cerne da PNL, faz-se necessária e urgente nos dias atuais, quando a informação compacta, superficial, trazida pelos meios de comunicação em massa – rádio e TV – passa a ser a opção mais rápida de “entender” o mundo para grande parte da população. Este informação é prática, fácil de ser colocada nas conversas corriqueiras do nosso vai-e-vem diário e aí está o grande perigo: verbalizar sem realmente refletir, questionar, não é o mesmo que absorver, sorver cada palavra, seu sentido mais amplo. Para isto, são necessárias pelo menos duas pessoas. Para isto, é imprescindível dialogar.

O fato é apenas um registro, algo relevante que pode mudar rumos, uma indignação que pressupõe uma ação imediata ou uma denúncia que mobiliza? Só o diálogo permite a reflexão; só ele nos move, arregimenta mais pessoas, muda a história.

E o que mais me deixa atônita atualmente é a percepção de que as pessoas andam meio alienadas, anestesiadas, robotizadas, pouco à vontade com a arte do diálogo, do expor o que se pensa e se permitir um novo pensar a partir do que o outro traz. Repensar e reconstruir juntos algo que passa a ter o DNA dos dois, o olhar dos dois.

Um dos meus passatempos preferidos é a leitura; de bula de remédio à literatura, nada escapa às minhas indagações, dúvidas, curiosidades. Gosto de conversar com pessoas que amam os livros, que pensam o que dizem, refletem e permitem o refletir conjunto. Pessoas inteligentes, interessadas em temas variados que muitas vezes parecem dissociados como economia e gastronomia, música e educação, política e anticoncepcional, teatro e futebol. Esse cardápio exótico degustado a dois é muito mais excitante quando praticamos o diálogo no seu mais profundo significado socrático, pois traz a leveza indescritível da sensação de que quanto mais conversamos, mais sabemos que nada sabemos, pois cada olhar é apenas um único olhar, incompleto quanto à percepção do todo, mais rico quando dois.

Praticar Sócrates é um convite à cidadania, pois, no fundo no fundo, temos todos os mesmos temores e as mesmas esperanças e somente pelo diálogo temos a possibilidade de construir um mundo melhor, mais justo e digno de se viver. Conhecer a Programação Neurolinguística é um ótimo investimento na arte de se comunicar bem e, principalmente, na arte de lidar com gente.