segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Não choveu na horta da Educação

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.” São com estas palavras de Paulo Freire que eu faço minhas reflexões sobre o abismo existente entre a fala e as ações dos nossos governantes.

Ou será dos cidadãos do nosso país também?

Todos os dias de chuva nas cidades brasileiras trazem a costumeira conversa matinal sobre os engarrafamentos, as bocas-de-lobo entupidas, as ondas de água suja e barrenta que não perdoam os pedestres a caminho do trabalho ou dos seus afazeres, as encostas apinhadas de construções irregulares, despejando aqueles que não deveriam estar ali. A mídia, se não fossem os lugares diferentes, poderia até reprisar a mesma reportagem do ano anterior, onde tristeza, sofrimento, desespero se fundem ao descaso dos governantes. Os cidadãos, por sua vez, colocam as mãos na cintura e com o olhar perdido, como num transe, buscam forças para retomar suas vidas, muitas vezes mutiladas pela perda de familiares e amigos. No Rio de Janeiro, a cena de espanto do Governador Sérgio Cabral com a mão encobrindo a boca quando chegou à Angra dos Reis, é a síntese silenciosa da imensa distância entre o cargo e a eficácia da gestão.

Os depoimentos de técnicos e expertises nos meios de comunicação têm abordado a falta de projetos e planejamento a longo prazo para moradia popular, infra-estrutura básica – saneamento e esgoto e prevenção de catástrofes. Mais uma vez, a questão primordial do nosso país, o pilar de toda qualidade de vida que os cidadãos de países desenvolvidos usufruem, é deixada para trás, nem é mencionada como a raiz profunda de tantos e recorrentes problemas – EDUCAÇÃO.

Só preservamos o que conhecemos. Pois é o conhecimento que cria um vínculo com o objeto observado. Só podemos preservar a integridade da vida dos nossos familiares e os demais da comunidade a qual pertencemos, se temos conhecimento dos nossos direitos e deveres como cidadão. Somente a educação amplia esta percepção, por meio da formação escolar e acadêmica, que traz o mundo da leitura e das múltiplas interpretações dos fatos que nos cercam. Somente a educação fortalece nossa identidade como agente transformador que também se transforma num movimento sinergético, criando um círculo virtuoso de responsabilidade, respeito, unidade. Somente a educação permite a organização de sociedades civis sérias e pró-ativas que exigem, fiscalizam, mudam as regras e as leis.

Sem a educação ficamos não num círculo virtuoso e sim num círculo vicioso. Continuamos no vicioso hábito de jogar lixo pelas janelas dos carros e transportes urbanos; lançar entulhos em áreas proibidas, muitas vezes de preservação; sem reciclar TODO o resíduo que produzimos; sem manter as praias limpas após um lindo dia de verão ou uma ótima noite de reveillon; sem o conhecimento necessário para construir e habitar locais permitidos; jogando pneus em rios que deveriam abastecer nossas torneiras sem tantos processos químicos de limpeza, num interminável desperdício de água e energia; levando meia hora para tomar banho; descartando indiscriminadamente eletrodomésticos e outros equipamentos sem a percepção do prejuízo que causamos a natureza. Enfim, vivemos robotizados, inanimados, seres sem consciência.

Lembra a conversa matinal? Ninguém se dá conta que o engarrafamento, o entupimento das bocas-de-lobo e as ondas barrentas e sujas acontecem exatamente por causa da nossa falta de educação, aliada à ineficiência dos governantes. A fala e as ações estão em freqüências diferentes, não combinam.

Se nossa fala e nossas ações fossem sincronizadas, uma ecoando a outra, nossas manhãs de chuva seriam motivo de alegria para encher as cabeceiras dos rios; molhar a grama dos jardins públicos e privados; tornar um domingo excelente para dormir até mais tarde; ver um filme comendo pipoca; ler um ótimo livro com o arranjo musical dos pingos que batem nas janelas e soleiras. E mesmo assim, se houvesse engarrafamento, ouviríamos as notícias da manhã não mais pelos problemas “de sempre”, mas talvez por causa dos motoristas não tão acostumados a dirigir em dias chuvosos. Mas aí é outra conversa....

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Adeus Ano Velho...Feliz Ano Novo...

O calendário, seja ele solar ou gregoriano, foi inventado pelo homem com a finalidade de contar o tempo, algo que sirva de referencial para a nossa existência e a do mundo. É a simbologia do dia/mês/ano que nos permite avaliar os nossos feitos e rever os planos daqueles que estão por vir; registrar os momentos de alegria e lembrar os momentos de aprendizado e dor; fazer os rituais de passagem para a adolescência, o primeiro namorado, o primeiro emprego, vestibular, formatura, casamento, primeiro filho, as primeiras rugas, as mudanças do corpo e da mente. É o instrumento que utilizamos para fazer o balanço da vida: quanto já caminhamos? Quanto será que falta caminhar? Estamos mais para a vida terrena ou para a vida eterna?

Adeus Ano Velho...Feliz Ano Novo...Que tudo se realize, no ano que vai nascer...

Será que cada um de nós internaliza cada palavra da famosa canção natalina? Estamos dispostos a dizer adeus ao velho e receber o novo de braços abertos?

Creio que este seja o grande desafio, o grande presente que podemos nos dar para vivenciar intensamente a prosperidade do novo ciclo e usufruir das novas oportunidades. Só de mãos abertas acenamos para alguém que encontramos. Somente de braços abertos podemos dar um caloroso abraço em um amigo ou ente querido. Apenas de coração aberto estamos prontos para aceitar o outro como ele é, com suas qualidades e diferenças na forma de pensar e agir. Para que corpo, mente e alma estejam em sintonia, em movimentos sincronizados, é importante praticar alguns valores filosóficos:
  • Flexibilidade, capacidade de sair do seu ponto de vista e passear pelo espaço do ponto de vista do outro. Olhar com o olhar do outro, sem julgamento, apenas experienciando este novo olhar. Assim, podemos compreendemos o outro e podemos aceitar ou não a sua opinião, surgindo daí o diálogo respeitoso para a construção de uma ideia conjunta. A flexibilidade traz intrínseca a prática do respeito ao indivíduo e suas crenças.

  • Cooperação, operação conjunta, união de pessoas com foco no mesmo resultado. O movimento da cooperação é mais atual do que nunca, quando temos um planeta de 6 bilhões de habitantes que necessitam de água, comida, moradia e emprego para viver de forma digna. É o olhar mais a ação em prol de um mundo melhor para todos, da unidade como seres humanos.

  • Solidariedade, comunhão de atitudes e sentimentos, capaz de resistir às forças exteriores e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face da oposição vinda de fora. É a nossa força interior que emerge quando deixamos o sentimento de unidade nos comandar, quando sentimos na carne o que o outro sente, quando nos vemos em seu lugar. É a qualidade humana mais nobre e mais visceral.

Como meu presente de Natal para todos vocês, deixo o convite para a prática da confraternização no seu dia-a-dia. Confraternizar que significa unir, conviver ou tratar como irmãos; ter os mesmos sentimentos, crenças ou ideias, e se não forem tão iguais, aceitar as diferentes manifestações do outro com amorosidade e humildade.

Pois o Natal, festa originalmente pagã no antigo Egito, é um ótimo momento para entendermos que todas as religiões levam a um mesmo Deus, buscam as mesmas salvações, os mesmos paraísos que encontramos quando olhamos para dentro de nós mesmos, o nosso templo interior de luz, sem espaço definido, nem tempo com data marcada em nenhum calendário criado pelo homem.

Que venha 2010 e que tenhamos dois mil e dez motivos para sermos felizes e prósperos!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Tempo...Tempo...Tempo

Quando adolescente, costumava dizer que seria o máximo ter dezoito anos com a maturidade dos 40. Como eu poderia saber o que era maturidade e ainda por cima o que era ter 40 anos?

Temos a ilusão que controlamos o tempo, essa medida criada pelo homem para organizar a vida e medir sua própria existência. Será que foi criando o tempo que começamos a questionar a vida? Será que quando os homens da caverna contavam as luas, eles já tinham crises existenciais, dúvidas do “ser ou não ser”, julgamentos rígidos sobre seus atos, erros e acertos? Será que foi a modernidade dos relógios de pulso, de cabeceira, de computador, de despertador que nos tornaram escravos do “mais um dia na minha vida” - o que fiz ou o que não fiz?

Quando eu era garota, era libertador pensar que tudo podia. Não pensava sobre o tempo – apenas vivia minhas aventuras, as fantasias de ser “Jeannie” do seriado “Jeannie era um gênio” ou Samantha do seriado “A Feiticeira”. Poder mexer o nariz ou cruzar os braços e ver os meus desejos realizados: ser mais bonita, ter roupas descoladas, ver o príncipe encantado chegar fazendo uma declaração de amor, enfim, coisas de menina.

O tempo foi passando, ops, olha eu falando dele e os seriados ainda eram os mesmos; a programação não era tão diversificada e renovada como nos dias de hoje. Eram duas emissoras – Aratu e Tupi. Eu até sabia, aliás, ainda sei, a música que tocava quando começava a programação: “Bom dia, bom dia, Bahia do meu coração, Canal 4 está chegando em seu lar, TV Aratu está no ar”. É verdade, a televisão saia do ar e retornava no dia seguinte, nada parecido com a programação atual de 24 horas ininterruptas.

Bem, deixando os devaneios, o tempo foi passando e a imagem que eu fazia de mim como uma gênia ou uma feiticeira era uma doce fantasia, que passou a alimentar outros desejos – como adolescente e para não fugir da regra, queria estar formada, morando sozinha, nada de casamento nem filhos, com uma profissão de sucesso, viajando, enfim, livre, fora das asas dos pais. Minha geração foi adolescente nos anos 80 e nada era mais normal do que querer a liberdade total; eram as discotecas, as danças coreografadas, a sensualidade permitida nas novelas, filmes americanos, músicas de crítica social e política. Questionávamos tudo, fazíamos grandes debates, líamos livros de escritores que nos faziam refletir sobre o status quo, as desigualdades. Nada parecido com a geração 2000 que continua na casa dos pais como se fosse hotel, usufruindo do bom e do melhor, pensando em mba’s, cursos de pós, cursos para concursos, namorados dormindo nos quartos com direito a café da manhã.

É incrível como personagens da infância transformam-se em âncoras. A ancoragem é um processo de associar algo a uma sensação interna particular que nos fortalece, nos estimula, nos impulsiona ao movimento. Hoje quando fico indignada com a pobreza da maioria da população que me cerca; quando fico triste e comovida com a infância interrompida de tantas garotas mães aos 13 anos; quando comparo a estética dos grandes empreendimentos com as paredes de tijolos dos casebres dos bairros periféricos e de baixa renda; quando vejo tantos pais sem instrução suficiente para conquistar um emprego digno para manter sua família; quando assisto às guerras civis na África, com a epidemia de AIDS deixando tantos africanos órfãos; quando me irrito profundamente com a corrupção nas esferas políticas do nosso país, fecho os olhos e penso como seria bom ser a feiticeira dos seriados. Bastaria torcer o nariz, ou apontar o dedo, e a periferia pobre do meu país se tornaria uma periferia digna de cidadãos honestos e trabalhadores; as crianças e pré-adolescentes estariam em escolas públicas de qualidade, turno integral, aprendendo artes, música, dança, cidadania; as casas teriam espaço suficiente para os pais criarem seus filhos, com parques e área verde no bairro; homens com instrução e empregos dignos para proporcionar à sua família o bem estar que alimenta os sonhos; com uma varinha mágica acabariam as guerras e o desrespeito ao próximo na África, na América Central e no Oriente Médio; os políticos corruptos estariam presos como exemplo para as nossas crianças e novos governantes honestos e entusiasmados em servir aos cidadãos seriam escolhidos como modelo para os nossos jovens. Claro que não precisamos esperar pela magia para tomarmos uma atitude, nos movermos, fazermos a nossa parte. Cada um de nós tem todas as qualidades necessárias para sermos agentes de mudança.

Hoje com mais de 40, casada, mãe de dois filhos, profissional realizada, cidadã consciente e atuante, o que me faz rir quando penso na minha frase de adolescente, é que o legal, a grande magia, é exatamente o oposto - ter 40 anos com o entusiasmo dos 18 - para que o lema da “liberdade, igualdade e fraternidade” nos impulsione a agir em prol de um mundo melhor. E para isso, meus caros amigos, não é preciso ser feiticeira nem gênia de nenhum seriado de tv.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Seres Sociais e Falantes

Começamos a balbuciar as primeiras palavras ainda bebês, repetindo o que nossos pais ou as pessoas mais próximas falam. São sílabas, palavras muitas vezes incompreensíveis, na tentativa de promover a comunicação para um patamar mais evoluído. Passamos a seres sociais e falantes.

E o que é exatamente falar? Como estruturamos esse sistema tão complexo?

A fala como expressão surge a partir da interação que estabelecemos com as pessoas ao nosso redor. Vamos absorvendo a forma, os padrões, os modelos do outro, inicialmente repetindo-os, depois dando uma nova roupagem e criando nosso próprio estilo, nossos próprios padrões e modelos. Por isso é tão importante a qualidade dessa interação, pois interagir, ou seja, agir em interação com o outro, significa captar seu mundo interno, perceber como processa as informações, como elabora suas opiniões, quais os paradigmas e crenças que estruturam e formam seus valores e suas verdades. Do contrário, seremos como um turista que anda em território estranho sem entender a cultura das pessoas que ali vivem, sem se colocar no lugar do outro e sentir a essência da mensagem que é transmitida. Estar em interação é exatamente isso – conhecer esse país tão singular e único chamado “Eu”.

Mundo interno tem idioma próprio?

A nossa forma de falar é o idioma do nosso país interior; ela expressa nosso pensamento, nosso olhar sobre o que está fora, além dos nossos “limites territoriais”. Se nos expressamos com cordialidade, cooperação, nosso país está em paz, comungando de excelentes “relações internacionais”. Se nos expressamos com rispidez, arrogância, nossa fala – o “ministro das relações externas” –passa a mensagem de que não respeitamos os outros, nos sentimos superiores e melhores.

Será? Será que muitas vezes não estamos apenas tentando esconder as fragilidades dos nossos “sistemas”?

É por isso que o idioma representa a identidade de uma nação. Ele é uma forte marca do seu povo, da sua história. No nosso microssistema, a expressão da nossa fala é a nossa identidade, a forma como nos mostramos ao outro, seja pela entonação das palavras nas horas mais tensas e conflitantes; seja pela alegria ao relatar um feito; seja pela suavidade e sensibilidade quando confortamos, demonstramos nosso afeto, nossa gratidão; seja pela flexibilidade no uso das palavras quando interagimos com os mais diversos públicos; seja pela falta de palavras quando deixamos transparecer toda a nossa comoção e emoção; seja no mais profundo silêncio; por mais paradoxal que pareça, quando as palavras são dispensáveis, desnecessárias e insignificantes.

Quando falamos, estamos permitindo ao outro conhecer nosso mundo mais íntimo: demonstramos nossas emoções, nossa capacidade cognitiva, nossa inteligência, nossos valores morais; abrimos a porta da nossa casa e apresentamos nossos familiares, amigos, vizinhos; demonstramos empatia, solidariedade, compaixão; mostramos nossas fragilidades, nossos medos e anseios; falamos de projetos, sonhos, desejos pueris.

O que mais me fascina na interação com o outro é a mágica que acontece quando o nosso mundo interno se transforma: trocando idéias e experiências vividas, muitas vezes mudamos nosso olhar em relação aos fatos; modificamos posturas e atitudes; revemos crenças e paradigmas que pareciam inabaláveis; entendemos quão diferentes são esses países “Eus” e exercitamos a flexibilidade e aceitação.

E nessa interação, usufruindo de tantas preciosidades, de tantas experiências e aprendizados, podemos gradativamente afrouxar nossos “limites territoriais”, agregando “novos países” e criando “grandes continentes”. E relembrando a expressão que Marshall Mc Luhan cunhou, formaríamos uma verdadeira “aldeia global” de seres humanos sociais e falantes convivendo em harmonia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Vida de Artista

Vida de artista é uma ótima metáfora para refletirmos sobre quem somos nós, entre tantos eus que vamos criando ao longo da nossa história. O ator é escalado para representar um papel e mergulha nesse universo novo e desconhecido que é um ser humano virtual e ao mesmo tempo tão real, para que o público possa se identificar.

Na nossa vidinha diária, cotidiana, sem o glamour da mídia e sem os calorosos fãs, também vamos construindo nossos papeis, nossos eus: eu sou filha de... eu sou mãe de...eu sou esposa de...eu sou irmã de...eu sou amiga de...eu sou cuidadosa com meu corpo...eu sou voluntária em...eu sou profissional da área de...eu sou...eu sou... Nossa mente parece um terreno loteado de seres de vida própria, de hábitos diversos, de formas diferentes de ver o mundo. Cada um em seu espaço, com experiências e sentimentos singulares.

A grande arte da vida é colocar em sintonia e sinergia todos esses papeis, nossas subpersonalidades tão importantes e ricas para a construção e manutenção da nossa identidade. Aliás, para a qualidade da nossa saúde física, mental, emocional e espiritual.

E como podemos fazer isto? Como exercitar, assim como o ator, entrar e sair e voltar e aprender com tudo que vamos experimentando?

Para mim a criatividade é uma prática bastante prazerosa e divertida de fazer essa integração. Segundo Jairo Siqueira, que cunhou o termo criatividade aplicada, nossa mente utiliza estratégias para criar e solucionar, de forma inconsciente, os desafios que surgem na nossa vida.

Gosto muito de um deles que considero bastante rico. Chama-se “Outros pontos de vista”. Esta estratégia nos leva a “sair do quadrado”, da nossa forma habitual e muitas vezes linear de percebermos o mundo.

Vamos ver como funciona?

Imagine que eu sou uma profissional que está desempregada. Com tempo livre, passo a exercer o papel de dona-de-casa com mais disponibilidade.

Como posso ser uma dona-de-casa eficiente, para usufruir melhor o tempo com outras atividades?

Nesse momento, eu posso trazer a experiência de outro papel – de administradora – que ao chegar à empresa analisa as prioridades do dia, organiza as tarefas dos colaboradores e delega responsabilidade.

Como eu, no papel de gerente, faço para atingir os resultados e cumprir a agenda da equipe? Quais as qualidades e recursos que utilizo?

Para isso, transporto-me momentaneamente para o ambiente empresarial e volto trazendo, para meu papel dona-de-casa, as estratégias que funcionam na empresa – organizar as tarefas diárias da empregada doméstica, listar semanalmente os produtos para comprar no mercado, delegar para marido e filhos algumas atividades.

Deu para perceber como papeis considerados tão distintos, em ambientes tão diversos, podem entrar em sinergia e colaborarem uns com os outros? A idéia da estratégia “Outros pontos de vista” é exatamente fazer um intercâmbio entre eles, onde a excelência de um pode ser aplicada em outros.

Ao deixar meu papel de dona-de-casa mais estruturado, eu fico mais livre e menos cansada. Posso então deixar emergir os recursos de outro papel – de bailarina de jazz – a concentração, a disciplina, o prazer de trabalhar em grupo, a alegria e emprestá-los para um novo papel que posso desempenhar num momento que tenho tempo ocioso – ser voluntária de alguma ONG.

A dinâmica empresarial inspirando o ambiente familiar a funcionar da melhor forma. Qualidades e recursos de um papel inspirando outros a atingirem seu objetivo e permitindo o surgimento de novos papeis. Mesmo em situações adversas como o desemprego. É a máxima de transformar um limão em limonada.

À medida que nos permitimos visitar outros papéis para pedir emprestado um pouco do seu olhar, do seu movimento peculiar, acabamos por transformar o papel que recebe, que absorve do outro. Vamos mudando naturalmente o figurino dos nossos personagens, às vezes um pouco fora de moda, ampliando suas possibilidades, ressignificando suas crenças, atualizando o roteiro para o que somos hoje.

Assim como acontece na vida do artista, que mesmo interpretando pais, filhos, maridos, profissionais tantas vezes ao longo da sua carreira, nunca um papel é igual ao outro, assim somos nós, que vamos vivenciando com a maturidade, com as experiências diárias, novas facetas de papéis tão conhecidos, tão singulares, que nos presenteiam com surpresas inusitadas.

Que tal acabarmos com a imagem de nossa mente como um terreno loteado, retirando as cercas que bloqueiam nossa criatividade, permitindo que ela possa passear livre entre os campos, colhendo nossas melhores flores entre tantos eus?

Aposto que assim subiremos ao palco da vida muito mais leves, flexíveis e preparados para vivê-la plenamente. Lembrando sempre que somos um único ser humano de vários papéis que comungam de preciosas qualidades.

Que se abram as cortinas! Que comece o espetáculo!

domingo, 4 de outubro de 2009

Meu Coração é Verde e Amarelo...

Para a linha espiritualista, o verde é a energia do chacra cardíaco – do coração, centro dos sentimentos. O amarelo rege o chacra do plexo solar, região do nosso aparelho digestivo e excretor, centro emocional, onde assimilamos as informações do cotidiano que os nossos cinco sentidos captam. O azul representa a energia do chacra laríngeo, situado na garganta, centro da comunicação, da expressão.

No nosso símbolo cívico maior, a bandeira nacional, o verde representa nossas matas, ambiente lúdico onde nasceram os nossos personagens folclóricos mais famosos. O nosso sentimento de brasilidade está intimamente ligado aos curupiras, sacis-pererês, caiporas, dentre outros. Poderíamos até dizer que o verde das nossas matas rege esse centro de sentimento nacionalista. O amarelo relembra nosso ouro. Talvez a nossa primeira percepção de colonizados tenha começado quando os portugueses exploraram nossos minerais, extraindo nossas pedras preciosas para enfeitar os alvos e bonitos pescoços das damas da corte. E assim, também como ocorre com o centro emocional energético, assimilamos a realidade ao nosso redor nos identificando como um povo de alma submissa, com sentimento de inferioridade e de olhar estupefato para tudo que ocorre acima da linha do equador e do outro lado do oceano. O azul, por fim, é o nosso céu límpido e nossas águas cristalinas. É a voz dos cantores e a fala dos escritores que atravessam mares, levando nossa musicalidade única e ao mesmo tempo tão impregnada de tantas outras culturas. É o nosso chacra que canta Tom Jobim, Jorge Ben, Daniela Mercury, Caetano e Chico.

O grande desafio, segundo os espiritualistas, é manter os três chacras – cardíaco / emocional / da expressão – em harmonia, para que o chacra Ananda Khanda possa estar plenamente em funcionamento. Ele é o chacra da essência do verdadeiro Eu – nossa missão. A individuação do ser, segundo Jung.

Qual seria então o grande desafio do Brasil?

Construir sua verdadeira identidade? Encontrar a sua missão de país continental, da América do Sul, dono da maior floresta do mundo, do maior litoral do mundo, do povo mais miscigenado do mundo, de uma das maiores economias do mundo?

Que pena! Não foi isso que eu consegui perceber na comemoração da escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016.

A Comitiva brasileira presente em Kopenhagen e a multidão nas areias da praia de Copacabana foram uma prova nítida da relação dos chacras e das cores da nossa bandeira, pelo meu modesto olhar. O discurso dizia que pela primeira vez um país sul-americano, de terceiro mundo, era escolhido. Que nosso lindo país verdejante receberá os maiores atletas mundiais com seus atabaques e escolas de samba; que nossa feijoada e caipirinha serão os sabores da vitória para aqueles que brindarem com suas medalhas de ouro. Que chegou a vez do Brasil mostrar que pode gastar R$25,9 bilhões dos cofres públicos. Vale registrar que o orçamento 2009 para Saúde é de R$59 bilhões e para Educação é de R$ 41 bilhões.

Podemos realmente gastar?

Sei que talvez fiquem estarrecidos com minhas palavras, sei também que talvez digam que estou sendo antinacionalista ou talvez até que devesse me mudar para outro país. O que posso dizer, no entanto, é que torci por Madri, Japão e Chicago, menos pelo nosso lindo Rio.

Antes de enfeitarmos as ruas cariocas com os aros olímpicos, eu preferiria anunciar em outdooors fotos e fatos mostrando o Brasil com altíssimos índices educacionais, propagandas dos nossos ótimos postos de saúde e hospitais públicos, semblantes plácidos dos moradores dos bairros e cidades livres de violência e insegurança. Estes sim seriam motivos para sediarmos uma Olimpíada, seria nosso melhor marketing.

Eu preferiria ouvir que todo empenho empreendido pelo governo brasileiro em sediar as Olimpíadas tinha sido o mesmo direcionado para a excelência no tripé básico da cartilha governamental de um país sério e representante do seu povo: educação – saúde – segurança. Aí sim, o governo merecia a maior de todas as medalhas de ouro.

Eu gostaria de sentir o comprometimento, a transparência e a retidão em cada ação governamental para utilizar tão alto orçamento, que vem do bolso de cada contribuinte, em projetos dignos e com foco na qualidade de vida do cidadão brasileiro. Aí sim, seríamos a melhor manchete nos jornais ao redor do mundo.

Por tudo isto, sugiro uma mudança nos critérios para a indicação de cidades a sediar olimpíadas e copas do mundo: altos índices de IDH – índice de desenvolvimento humano. Somente com brasileiros saudáveis, seguros e educados com qualidade, poderemos receber grandes eventos e assim parafrasear a eterna Carmen Miranda dizendo: Yes, nós temos Olimpíadas. Ou, quem sabe, para não fugir do complexo de inferioridade nacional, parafrasear Barack Obama e dizer: Yes, we can!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Toque de Recolher ... Se Recolher...Se Tocar...

“Quase duas semanas que não vou à escola, porque as aulas estão suspensas à noite”, disse nossa funcionária. Um grupo que controla a “boca” de fumo onde ela mora, no bairro de Portão, estabeleceu o “toque de recolher” a partir das 19:30h, com cavaletes e homens fechando os acessos para Vila Nova. O que aconteceria para quem infringisse a “ordem”? Era só olhar para a cintura recheada de munição dos homens da gangue. Ela e outros moradores já estavam pensando em alugar outro imóvel para morar, até as coisas acalmarem. Placas de “vende-se” ou “aluga-se” foram proibidas, para não chamar a atenção.

Graças a Deus, o pesadelo durou pouco, a “normalidade” voltou e as aulas recomeçaram também.

Portão, para aqueles que são novos em Lauro de Freitas, fica do lado oposto a Vilas do Atlântico, do outro lado da Estrada do Coco, local tão antigo quanto o próprio município. O bairro tem esse nome, pois naquela área ficava o portão de entrada de uma antiga fazenda da região. Muitos antepassados de moradores foram escravos e acompanharam o surgimento e crescimento do lugarejo que um dia também já foi Santo Amaro de Ipitanga.

Onde estava a mídia que não noticiou o fato? Onde está a mídia que deixa a violência dos bairros periféricos tão distante do conhecimento do restante da população? Será que não dá Ibope, que não gera a comoção e indignação como outros acontecimentos, não menos revoltosos, como a médica que foi morta por um psicopata ou o engenheiro da Ford que foi assassinado no posto de gasolina ou o menino arrastado por um carro no Rio ou a menina feita refém do namorado em São Paulo ou a gangue que invadiu um prédio de alto luxo ou...ou...ou...

Será que só resta espaço nos programas tipo show de horror, de humilhação?

Nossa funcionária contou que só tinha ouvido falar em toque de recolher na televisão, nos morros do Rio de Janeiro. Agora tudo acontecia bem ali, ao vivo e a cores, pertinho dela, nascida e criada na região, quando ainda era um lugar tranqüilo, de gente simples, de areia muito branca, rios limpos e muitas árvores frutíferas.

Toque de recolher... termo usado durante guerras, pelos países europeus, para informar à população que era hora de deixar as ruas. Durante as guerras, tratava-se de uma forma de proteção às famílias e cidadãos. Hoje, para pessoas como nossa funcionária, ironicamente trata-se de uma intimidação, uma ordem dada por pessoas fora da lei, que se fazem lei, num território onde “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

O que não falta nos nossos noticiários são os mais diversos casos diários de violência. São tantos e tão espetacularmente anunciados, com simulações e depoimentos de especialistas, que a banalização do sofrimento e a falta de respeito à cidadania já se instalaram. É parte obrigatória do roteiro diário dos editores-chefes. Os mais afortunados são as vítimas e os menos afortunados são os infratores. A velha fórmula do mocinho e do bandido cristalizada na tela da TV. E o que será que está por trás disso tudo? Quais as crenças que permeiam as decisões do que mostrar: o que dá mais comoção, o que escancara a falta de gestão pública, o que aumenta a discriminação social num país tão desigual, o que permite um show de horror? Onde está a denúncia séria, a indignação que rasga a alma, a cobrança por ações corretivas e preventivas?

Esqueceremos tudo daqui a uma semana quando outro caso for mais aterrorizante?

Algum tempo atrás, nos idos dos anos 70, os prédios não tinham grades e muitas casas não tinham muros. Nos anos 90, as novas construções eram rodeadas de muros altos e as janelas gradeadas já faziam parte da estética arquitetônica. Neste novo século, ainda na metade da primeira década, assistimos lançamentos imobiliários de verdadeiras mini-cidades, com acessos restritos, vigilância 24 horas, infra-estrutura completa para não ser necessário sair do território seguro. Feudos urbanos, repaginados, mais democráticos, com uma clara mensagem de medo e insegurança no seu conceito. Sim, pois de nada adianta ressaltar as áreas de lazer e de convívio; as pessoas estão sim, buscando formas de proteger suas famílias; de poder dormir com tranquilidade, já que durante o dia não dá mais para andar tranqüilo pela cidade; de estabelecer algum limite entre o que se pode ter ingerência e o que não se pode controlar.

Será que as classes A e B criaram seu próprio “toque de recolher”? Será?

Para a grande maioria da população brasileira, no entanto, resta rezar e pedir por proteção, para que, ao final do dia, toda a família esteja reunida, recolhida ao seu lar, agradecendo mais um dia sem ser estatística ou notícia no segundo caderno do jornal.

Por isso, caros leitores, mesmo com todo sentimento de impotência que insiste em invadir a minha alma, conclamo vocês não ao “toque de recolher”, à zona de conforto imaginária e sim, ao recolher-se para que sejamos tocados pela nossa mais profunda motivação, pelo senso de coletividade, de unidade que somos como seres humanos tolhidos do seu maior bem – a liberdade de ir e vir com paz de espírito - para fazermos algo urgente, JUNTOS, pois a mesma rua que se veste tantas vezes para a alegria, se desnuda diariamente do sonho de uma cidadania plena cada vez mais distante.

Ou será que continuamos pensando que nunca acontecerá conosco?